Baixada Alvi-Grená

junho 22, 2010 por  
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Projeto original da faixada do Estádio realizado pelo arquiteto Kaulich

O Estádio da Baixada no Grêmio Esportivo Olímpico foi considerado por muitos anos um dos melhores do estado. Blumenau sempre primou em oferecer instalações exemplares para todas as modalidades esportivas, invejada por grande parte das cidades do sul do país. 

O que hoje temos como uma sede social aconchegante, foi por anos uma arena de leões, onde a paixão se confundia com todas as emoções, e a própria história se mistura com a lembrança de glórias, lágrimas e sorrisos. 

Foi no reduto grená que ficou marcado o que pode-se considerar os momentos da maior e inesquecível rivalidade do futebol da região. Ali o Olímpico viu nascer títulos, mas também onde sentiu o surgimento de muitos fatos contrários a si. Por esses motivos ainda hoje é considerado um templo sagrado para o clube. Uma espécie de refúgio de saudades, que para muitos se transformara em um perpétuo retiro de recordações. 

Logo depois de fundado, o então FC Blumenauense realizava suas partidas próximo ao campo de seu rival, na Rua das Palmeiras, mas teve que recorrer à Sociedade Ginástica para conseguir realizar jogos oferecendo uma maior comodidade para jogadores e torcedores. Enquanto amadora, a equipe teve o direito de utilizar o campo da Ginástica, mas esse lhe foi tirado com a profissionalização do futebol. 

O clube estava bastante amadurecido, com um considerável quadro social, e o sucesso na realização de jogos frente a adversários fortes levara a entidade a filiar-se à Associação Esportiva do Vale do Itajaí, cuja sede era em Itajaí. 

A própria constância das partidas fez criar junto aos dirigentes do Turnverein uma oposição, mas mesmo assim a direção do então Blumenau Sport Club, nome adquirido com os estatutos de 1937, tendo à frente Otto Abry e Walter Meyer, já pleiteava a concretização de uma futura sede, que hoje constitui-se como um grande orgulho do Olímpico. 

Construção do estádio da Baixada em 1936/1937

Conforme o livro de atas da época, em 18 de novembro de 1936 foi apresentado por Abry e Meyer a proposta da compra de um terreno nas proximidades do centro da cidade. Eles já haviam sondado algumas famílias dispostas a negociarem seus patrimônios. A proposta recebeu simpatia, mas o processo de aquisição demorou ainda algum tempo, permanecendo a intenção mesmo durante a elaboração de novos estatutos, que viriam a dar uma nova roupagem ao clube. 

Primeiro foram adquiridos terrenos de Bruno Hindlmeyer, depois em 17 de julho do ano seguinte, o vice-presidente, Walter Meyer recebe autorização da diretoria para tentar aumentar o patrimônio imóvel do clube. Já pertencia ao clube o que hoje seria a metade da grande área que o Olímpico possui, contados da direção Garcia-Centro. 

A outra área pertencia aos herdeiros da família Altenburg, e em 17 de agosto de 1937 foi discutida a compra do terreno, que mais tarde viria a ser anexado ao patrimônio do clube. Em 29 de setembro o Olímpico passou a fazer parte da ASVI. 

Novembro de 1937, em uma sessão extraordinária o associado Helmuth Hackländer insistiu em terminar com as negociações do restante das terras que estavam sendo adquiridas pelo clube junto aos seus até então proprietários, assim como nos trabalhos que já estavam em fraca atividade. 

Na época já se previa a construção de uma pista, que viria a ser concretizada quase 20 anos mais tarde. Sua posição seria oblíqua ao Ribeirão do Garcia, mas a intenção era de horizontalizá-lo, desde que adquiridas as terras dos Altenburg. 

Em 31 de janeiro de 1938 Otto Abry e Eitel Meyer, primeiro secretário do clube, discutem ferrenhamente, o que fez com que o dirigente maior da entidade se retirasse da reunião. Walter Meyer assume interrompendo temporariamente o assunto. Pouco mais de um mês a questão estava resolvida, voltando a ser a questão da compra do terreno retomada. 

Em 17 de fevereiro a negociação ficou definida em reunião da diretoria. O terreno seria pago aos herdeiros ao preço de 18 contos de réis, depois do falecimento da viúva Maria Altenburg, em parcelas de 12 contos em dinheiro e seis contos em ações “sendo que, em tempo de vivência de Maria Altenburg” pagaria um aluguel mensal de 30 mil réis. O preço inicial era de 12 contos de réis, mas por exigência do herdeiro Charles Ritter o valor foi aumentado.  

A negociação se concretizou em 1º de março de 1938. Para a construção do Estádio, a prefeitura municipal colaborou com mão-de-obra e equipamentos. Enquanto que o Blumenauense arrecadou dinheiro vivo através de ações, uma campanha para a construção propriamente dita, e a terraplanagem do local para ser colocado na atual posição.  

A Estrada de Ferro de Santa Catarina se comprometera a fornecer trilhos para serem colocados ao redor da área, no sentido de que por eles seria conduzido uma espécie de caçamba, com terra para o aterro, embora esse empréstimo fosse provisório. A preocupação foi enorme, de maneira que os próprios diretores, com suas famílias, associados e inclusive seus empregados particulares, tiveram participação decisiva à sua conclusão. Tudo foi realizado como se em tempo recorde: O Blumenauense Sport Clube contava com sua praça de esportes.   

Etapa cumprida. O clube conseguia seu primeiro triunfo: um estádio de futebol.  Com uma extensa área, atletas, associados e pessoas, que mesmo anonimamente colaboraram, o campo recebeu quase quatrocentas mil mudas de grama, plantadas principalmente no final de semana.   

Em 1939 o campo estava pronto: plantado, arborizado, com vestiários provisórios, cercado. No dia 9 e 10 de abril o estádio foi festivamente inaugurado, com torneios entre equipes principais e infantis.   

Participaram de jogos preliminares equipes da Rádio Cultura, Amazonas, Salto Humaitá, além do Fluminense, que venceu o torneio. Na categoria principal jogaram os mais conceituados da cidade, como o próprio Blumenauense, Amazonas, Brasil, Bom Retiro, Altonense, entre outros. O Amazonas, na ocasião sagrou-se campeão do primeiro torneio disputado oficialmente no estádio.   

A equipe da Alameda Duque de Caxias venceu por 6×2. A equipe grená jogou com Koenig, Arthur, Arécio, Longo (Meyer), Tigy, Krepsky, Lucas, Pawloswky, Hahn, Margarida e Schadrack. O Brasil apresentou-se com Bruno, Karsten, Maar, Zequinha, Generoso, Irineu, Mário, Augusto, Janga, Mesquita e Schürmann. Apadrinharam o Estádio o casal Adolfo e Meta Schmalz.  

 Sucessivamente, as diversas diretorias que passaram receberam com o tempo a atribuição de ampliar, assim como modificar a sede social do clube. Logo em seguida à inauguração foi construído um galpão e um bangalô no local.  No ano de 1943 já se projetava a construção de um alambrado, exigência que na época estava sendo adotada pelas federações em todo o País. Na mesma época se criava uma comissão para a construção de arquibancadas.   

Implantou-se ainda uma comissão de obra, com um projeto sendo exibido à população blumenauense em uma das lojas da cidade. A comissão era formada por Antônio Vieira Ávila, Alfredo Campos, Walter Meyer, Américo Stamm, Willy Belz, Leopoldo Collin, Henrique Reschbieter e tenente Domingos Hernandez. José Ribeiro de Carvalho era presidente na época.  Em seguida o clube construiria canchas de vôlei e basquete, esportes esses que cresciam em números de adeptos, e ainda uma cancha de bolão, que mais tarde seria transferida com a sede nova e devidamente modernizada.

Festa da inauguração dos refletores do Estádio, em 20 de agosto de 1954: clássico entre o Olímpico e Palmeiras, vencido pelo alvi-grená por 1 a 0

Na gestão de Benjamin Margarida as arquibancadas receberiam uma reforma, com a construção de vestiários em 1953, e ampliadas em 1960 pelo presidente Osny Gil Kirsten. Logo o Olímpico realizaria mais um sonho, não somente dos sócios como também de toda a população: o clube colocaria iluminação no estádio para a realização de jogos noturnos.   

Os trabalhos tiveram início em 1952 com o esforço do então presidente Arnaldo Martins Xavier e o técnico José Pera. Em alguns meses famílias tradicionais de associados doaram material para a construção de postes de concreto. A Liga Blumenauense de Futebol, através do presidente Sebastião Cruz, dotava o clube com uma verba especial de Cr$20 mil. A primeira etapa constou no levantamento dos postes. Na gestão de Margarida foram adquiridos os holofotes em uma empresa especializada, da localidade Lençol entre Rio Negrinho e São Bento do Sul.   

No dia 14 de novembro de 1953 o então governador Irineu Bornhausen visitaria o estádio, quando destinaria verbas para o clube terminar as obras de iluminação. Em maio do ano seguinte a obra estava concluída, restando apenas alguns ajustes de direção das luminárias. Em 1º de julho a Cia. De Força e Luz entregava simbolicamente a ligação de rede, com Paulo de Freitas Melro, engenheiro chefe, acionando as chaves interruptoras no seu primeiro teste.   

O ajuste de foco estava concluído no dia 20 de agosto, data essa que ficou marcada na história esportiva de Santa Catarina. A inauguração constou da realização da primeira partida de futebol noturna de Blumenau. Como não poderia deixar de ser essa foi um clássico: Olímpico e Palmeiras.   

Naquele dia, 20 de agosto de 1954, novamente vinha à cidade o governador Irineu Bornhausen, que após uma recepção no Tabajara Tênis Clube, dirigiu-se até à Baixada Grená. Depois das solenidades, em que também se fizeram presentes Aderbal Ramos da Silva e Udo Deeke, aconteceu o jogo festivo com uma vitória da equipe da casa por 1×0, gol de Renê aos 7 minutos de partida.   

Apesar da grande rivalidade as duas equipes consideram o evento como muito importante. O ponta-pé inicial do jogo foi dado pelo governador, sendo o árbitro Wilson Silva. Foi um jogo cordial, visto por um público de quase cinco mil pessoas que proporcionaram uma arrecadação de Cr$ 37.865,00, um recorde para a época.    

Enchente de 1957 cobriu parcialmente a casa do zelador do clube, Arthur Jaehrig

Sofrendo constantemente a ameaça das enchentes, o grande patrimônio do Grêmio Esportivo Olímpico passou por muitas reformas. A pequena sede, que abrigava alguns departamentos foi transformado em sala de jogos, ganhando o clube modernas instalações para abrigar sua secretaria.  Infelizmente tornou-se necessário o sacrifício de uma das quadras de esporte coletivo. Posteriormente foi construída a piscina, em 1974, quando o clube passou a destacar-se nessa modalidade. Com a extinção do departamento de futebol profissional o campo recebeu mais opções para a prática do punhobol e de futebol suíço. Na nova foi possível a construção de canchas de bolão, assim como amplo espaço para a prática de bocha. A ampliação prosseguiu com a instalação de uma sala para musculação e adaptação para um quarto de sauna. Mais tarde com o resgate da Ginástica Olímpica, a parte superior do prédio serviria para abrigar esse esporte, além de serem construídos novos vestiários.   

Após a enchente de 1983 a velha arquibancada foi retirada, dando lugar a um amplo estacionamento, bem como ampliação do bar do clube. O tênis, que em 1938 havia sido iniciado com a integração do Rotweiss ao clube, mas paralizado depois, teve sua chance, com a retirada do alambrado construído ao redor do campo. Ao mesmo tempo construíram-se duas canchas dando ao associado mais uma opção de lazer, e duas churrasqueiras, tornando finalmente a sede do Grêmio Esportivo Olímpico em um local verdadeiramente de atividades múltiplas.   

Depois de concluída a nova sede social, transformando mais ainda a vida do clube, em seu interior construiu-se uma sala de sauna e sala para ginástica aeróbica e musculação. Mais tarde, na primeira gestão do presidente Otacílio Peron, o bolão foi dotado de equipamentos eletrônicos de armação de pinos, como poucas existentes na região.   

Reinauguração das canchas de bocha de bolão em 1979: Rui Willicker do Conselho Deliberativo e Ramiro Rudiger da CME

Canchas de tênis inauguradas em 1987

Sala de Musculação

Vista parcial da pista de atletismo Prefeito Busch Jr., inaugurada em 1956. Ao fundo, a piscina semi-olímpica construída em 1974

 

Pesquisa e Redação: Ralf Gert Simon
Fotos: J. C. Carmona

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