Período da Sociedade Desportiva Blumenauense (1919-1943)

abril 21, 2010 por  
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A primeira ata

No fim da década de 60 o clube recebe de volta uma de suas principais relíquias: o mais antigo livro de atas. Na foto, Benjamim Margarida e o presidente Otacílio Perón

Segundo relatos da época, a primeira ata do Futebol Clube Blumenauense (FCB) foi realizada no dia 14 de agosto de 1919. Na ocasião, cerca de 20 homens participaram do encontro no Hotel Guarujá, Alameda Duque de Caxias, no centro de Blumenau. Alguns idealizadores do clube presentes foram: Emílio Hoetgebaum, Henrique Sachtleben, Paulo Grossenbacher, João Hahn, Otto Brunner, Fritz Nicolai, Arthur Petters, Paul Kielwagen, Victor Theodoro Laux, Paulo von Czekus, Hermann Scheidemantel, Ernst Willrich, Hermann Hemke, Alfredo Diebold, Arthur Bruner, Alfredo Gehrer, Otto Güse, Hermann Brandes, Andréas Hoetgebaum, Alfredo Carvalho, Manoel dos Santos e August Mausmann.

As reuniões do FCB costumavam ser realizadas em hotéis da cidade ou muitas vezes nas próprias residências de dirigentes e associados. Além das atividades esportivas, o clube realizava periodicamente bailes públicos. 

Paulo Grossenbacher: diretor de campo em 1922

Em 05 de fevereiro de 1922, no Hotel Central, foi eleita uma nova diretoria, encabeçada por Júlio von Czekus como presidente e formada pelos demais membros: Alfredo Carvalho (vice-presidente), Gomes Winter (primeiro secretário e orador oficial), Hans Wasen (segundo secretário), Henrique Sachtleben (tesoureiro), Paulo Grossenbacher (diretor de campo) e a comissão fiscal composta por Oswaldo Werner, Willy Schmidt e A. Dressler.  

Na ocasião a diretoria propôs a nomeação de um presidente honorário do clube.    Gomes Winter sugeriu que fosse homologado o nome do candidato ao governo do estado – eleito posteriormente -, Hercílio Pedro da Luz, alegando “os serviços prestados a Santa Catarina pelo benemérito Catarinense e, justamente querido em todo o Brasil”. O título foi homologado e entregue em 17 de março de 1922 em sessão solene, quando Hercílio da Luz já era governador do estado. O filho, Amadeu da Luz, então juiz de direito em Blumenau, representou Hercílio no evento.  

Campeão de Simpatia  

Logo nos primeiros anos de fundação o FCB conseguiu um de seus mais importantes troféus: o Campeão de Simpatia. O antigo cinema do Hotel Holetz realizou em maio de 1922 um concurso para eleger o clube mais simpático de Blumenau entre os freqüentadores de suas sessões cinematográficas. O Futebol Clube Blumenauense foi então o escolhido para receber o troféu.     

A diretoria mandou construir uma pequena caixa para colocá-lo em exposição em uma das lojas da cidade, sendo esse o primeiro registro de um troféu recebido pelo clube ao longo de sua história.   

Futebol ganha visibilidade  

Trabalho de base no futebol já era realizado na década de30: a foto mostra uma das equipes juvenis do FC Blumenauense entre os anos de 1933/1937

Aos poucos o futebol tomava conta de Blumenau, dando início as grandes rivalidades entre os times. Os primeiros jogos do FCB eram disputados em um terreno próximo ao campo do Brasil, pertencente então à Família Holetz. Logo depois a Sociedade Ginástica emprestou o campo de exercícios, onde hoje se extende o complexo do Conjunto Educacional Pedro II, para as competições. O primeiro torneio ali data de 1921. A equipe do Blumenauense era formada basicamente pelos fundadores do clube e um dos times enfrentados: o Caxias Foot Ball Club e o Brasil FC. A concessão do campo durou 17 anos.  

Durante muito tempo o futebol se concentrava apenas em Blumenau entre as equipes que aqui existiam. Aos poucos conseguiu evidenciar-se contra outros clubes da região e até de Florianópolis, embora somente em 1928, através do Amazonas, que um time da cidade conseguiu vencer algum da capital. 

Até 1930 o FCB havia vencido nove torneios regionais. O intercâmbio não era comum, principalmente pelas dificuldades de ligação entre os municípios catarinenses. Na época o clube possuía jogadores como Kloth, Koenig, Waldemiro e Tigy.  

Nesta década o futebol blumenauense iniciou com uma grande decepção, depois de perder o título estadual de 1928, cuja final foi disputada com o Figueirense através do rival do FCB, o Brasil. Apesar de o Brasil ter perdido, o mundo desportivo da cidade revoltou-se, culminando na desfiliação “brasileira” da Federação Catarinense de Desportes Terrestres. Ao mesmo tempo que isso acontecia,  o FCB perdia o rival, que durante algum tempo ficou inativo até retornar com o nome de Recreativo Brasil. Talvez essa tenha sido uma das poucas vezes que todos os clubes blumenauenses tenham se unido em torno de uma causa comum.  

Porém a partir de 1935 o futebol em Blumenau atravessou uma de suas piores crises. Não se admitia o profissionalismo, compreendido na época como o motim para a constante troca de jogadores nos clubes. Conforme relatos da época, já existiam olheiros que observavam jogadores para no final oferecerem quantias em dinheiro em troca da transferência de clube. Além do Blumenauense, existiam na cidade outras equipes, clubes esses voltados exclusivamente ao futebol: o Bom Retiro, fundado em 1926 e que mais tarde seria um dos troncos do atual Clube Blumenauense de Caça e Tiro; o Amazonas, criado entre os operários da Empresa Garcia; Victória, mais tarde Vasto Verde, no Bairro da Velha; Liberdade; o Altonense, do bairro de Altona, hoje Itoupava Seca; e o América, depois Guarani, na Itoupava Norte.  

Jogo realizado no campo do Brasil, na Rua da Palmeiras, em 1934/35. Melhores das equipes, geralmente alemães, usavam o futebol muitas vezes para defenderem ideologias, como o Nazismo

Com os estatutos veio a estabilidade   

Otto Abry

O primeiro estatuto do clube foi registrado em 25 de janeiro de 1937. O registro do documento foi realizado no Cartório de Títulos e Documentos de Vitorino Braga, assinando a diretoria formada por Otto Abry (presidente), Walter Meyer (vice-presidente), Eitel Meyer (secretário), Benjamin Margarida (segundo secretário), Frederico Kretzmann (tesoureiro) e Helmuth Hacklaender (segundo tesoureiro). 

Uma curiosidade é que o clube havia nascido com o nome de Blumenauense Football Club, mas oficialmente era Football Club Blumenauense. No estatuto de 1937 passou a denominar-se Blumenauense Sport Club e, finalmente em 1938, Sociedade Desportiva Blumenauense, seu último nome antes de tornar-se Grêmio Esportivo Olímpico, em 1944.  

Walter Meyer

Para ser sócio do clube a pessoa devia ter 15 anos, bons antecedentes e costumes, não portar moléstia contagiosa e saber ler e escrever. Isso demonstrava que o clube buscava selecionar seus sócios. Outra transformação que determinava o estatuto era com relação a outros esportes, dando início à era do amadorismo olímpico.  

Os associados eram divididos em efetivos e contribuintes e honorários, e as mensalidades costumavam ser de 2$000 (dois mil réis). O atleta era considerado sócio contribuinte, pagando uma mensalidade obrigatória. Em 1937 foi criada na região a Associação Desportiva do Vale do Itajaí, onde houve uma preocupação maior em tornar de fato o futebol mais competitivo a nível estadual.  

Com a nova filiação, o FC Blumenauense recebeu inúmeras pressões de quem não admitia que o clube se voltasse ao profissionalismo. A principal oposição era da Sociedade Ginástica, que lhe tirou o direito de usar o campo que lhe fora emprestado. Em seguida muitos dos atletas também abandonaram a equipe. O impasse foi combatido, formando-se uma equipe de juvenis dirigida por Lindolfo Natal. Começaram a surgir atletas que mais tarde representariam verdadeiras bandeiras do clube, como Margarida, Zinkhahn, Nieksche, Wilmar da Luz e Júlio Grossenbacher. 

Com o fim do campo da Ginástica para os treinos, a agora Sociedade Desportiva Blumenauense (SDB) iniciou a compra de um terreno para a construção do seu novo campo. Durante um tempo, como alternativa o clube jogava eventualmente no gramado do Brasil e nos demais clubes de Blumenau. O grupo de atletas que possuía também projeta-se positivamente na cidade, alcançado logo em seguida prestígio a nível estadual e enfrentando os mais diversos times de Santa Catarina e de outros estados.  

No início da década de 40 o mundo passava por grandes transformações. Hittler invadiu a Polônia e o conflito mundial estava armado. O Brasil vivia o Estado Novo de Getúlio Vargas, que em 1942 declara guerra aos Países do Eixo (Itália, Alemanha e Japão). Tropas brasileiras eram arrebanhadas em todo o País, inclusive da região, que possuía já em Blumenau o Batalhão de Caçadores. Mesmo com guerras no Brasil e em outros países, o futebol continuava sendo uma paixão, e mais especialmente em Santa Catarina.

A organização futebolística recebia novos moldes na região, com a criação em 1941 da Liga Blumenauense de Futebol (LBF), uma instituição que tratava do futebol na cidade. A nova entidade surgiu do idealismo dos desportistas Capitão Nilton Machado Vieira, Benjamin Margarida e Willi Pawloswky, e o 1º presidente Alfredo Campos, um dos fundadores do Brasil FC, e mais tarde prefeito da cidade.   

Logo após a criação da Liga Blumenauense, a cidade recebe a visita de um dos maiores jogadores de futebol da história: Arthur Friedenreich, cujo avô foi um dos 17 primeiros imigrantes, fundadores de Blumenau. Na foto aparecem (da esquerda para a direita) Abdon Batista Lins (Tico), João B. Kliefel, Luiz Navarro Stotz, Arão Rebelo, Max Brueckheimer, General Paranhos, Gustavo Maas, Arthur Friedenreich, Alfredo Campos, Otto Abry, Benjamim Margarida, Manoel Pereira Júnior e Carlos Barbosa Fontes, no Campo do Brasil

No primeiro campeonato, o de 1941, o Brasil Futebol Clube foi o Campeão Catarinense de Futebol, título conquistado também no ano seguinte, em 1942.  

Em 1943 o time da Sociedade Desportiva Blumenauense disputava o título da Liga Blumenauense de Futebol com outras sete equipes: Brasil (mais tarde Palmeiras), América (hoje Guarani EC), Bandeirantes (Brusque), Timboense, Indaial, Concórdia (Rio do Sul) e Tupy, de Gaspar. 

Trio de Ouro: Arthur, Valdir e Arécio no início dos anos 40. Este último, mais tarde contemplado com a medalha “Belfort Duarte”

Sob o comando do técnico Manoel Pereira Júnior e o Tenente Hernandez na preparação física dos atletas, o Blumenauense organizou uma equipe formada por Waldir, Arthur e Arécio, Piska, Hini e Generoso, Iço, Willy, Bodinho, Pie e Abreu. A SDB conquistou o título da LBF, vencendo os 15 jogos disputados, marcando 77 gols, tendo sofrido apenas 16. O Blumenauense teve ainda o goleador do campeonato, Abreu, com 22 gols, seguido por Bodinho, com 20.   

A campanha de 1943 começou com o Bumenauense levantando o título deste Torneio. Em 11 de abril, o time iniciou a primeira partida goleando de 6 a 1 sobre o Bandeirantes. Em 26 de abril outro placar: 5 a 1 sobre o América; em 2 de maio vencendo o Indaial por 3 a 2. Finalmente chegou o primeiro clássico da cidade, com o Blumenauense enfrentando e vencendo por 7 a 2 o Amazonas no dia 6 de junho. Já no dia 20 a maior goleada, 11 a 1 sobre o Tupy de Gaspar. Os placares dilatados eram uma constante nos jogos que o Blumenauense disputava. Um exemplo disso foi o jogo contra o Timboense, quando no final a equipe de Blumenau venceu por 8 a 1.   

Em 1943 o Blumenauense também sonhava em ver seu futebol campeão do estado. Esse sonho parecia que se tornaria realidade depois de duas vitórias sobre o Brusquense: 2×1, em Brusque; e 5×3, em Blumenau, embora o time do Avaí, adversário finalista daquele ano, tivesse a vantagem do mando de campo na segunda partida. 

No primeiro jogo a equipe da Blumenauense cedeu o empate de 2×2 em pleno Estádio da Baixada, sendo derrotado pelo adversário no Estádio Adolfo Konder, da Federação Catarinense de Desportos, por 5×0.  

Mesmo derrotado, o clube contentou-se com o vice-campeonato de 1943, pois conseguia firmar-se entre os grandes times do estado. Nesta época também o clube despedia-se da denominação de Sociedade Desportiva Blumenauense, passando a ser em 1944 Grêmio Esportivo Olímpico. 

Equipe da SD Blumenauense: titulares de 1941/1943

Troféus conquistados pela SD Blumenauense até meados da década de 40 em diversos torneios de futebol

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